Evolução do conceito de centro translacional
Ligado a um hospital que é referência, o Centro para Pesquisa e Tratamento do Câncer transfere o conhecimento diretamente da bancada de laboratório para o ambulatório clínico

Por José Tadeu Arantes

O A.C. Camargo Cancer Center foi fundado em 23 de abril de 1953. Hoje, é reconhecido como um dos principais centros oncológicos da América Latina. Atende aproximadamente 15 mil pacientes por ano, oferecendo tratamento para mais de 800 tipos de câncer, e conta com mais de 400 médicos em 40 especialidades. É também um dos mais importantes centros de pesquisa em câncer, com mais de mil artigos publicados na última década em revistas de alto impacto e com relevantes contribuições à oncologia básica nas áreas de biologia celular e molecular, genética e genômica do câncer.

O que propiciou a transferência direta de conhecimento, da bancada de laboratório para o ambulatório clínico, foi o fato de o Centro Antonio Prudente para Pesquisa e Tratamento do Câncer ter, ao seu lado, um hospital que é referência no setor. “Durante os 12 anos de vigência da primeira edição do Programa, o setor de pesquisa do A.C. Camargo confundiu-se com o CEPID. Não havia duas equipes distintas. Era uma só. E o hospital como um todo também assumiu o CEPID como algo seu”, comentou Fernando Soares, diretor do Departamento de Anatomia Patológica.

Segundo o pesquisador, esse traço muito peculiar permitiu que os participantes do CEPID evoluíssem no conceito de centro de pesquisa translacional, isto é, aquele cuja atuação vai da bancada e da pesquisa básica até a clínica médica.

“Primeiro, pela criação de uma infraestrutura (instalações, equipamentos etc.), custeada pela FAPESP com as contrapartidas do A.C. Camargo e que se incorporou definitivamente ao patrimônio do hospital; depois, pelos focos de pesquisa do CEPID e do hospital, que acabaram se confundindo; finalmente, porque, após muita reflexão, entendemos que, em termos de transferência de tecnologia, mais importante do que criar patentes seria repassar os resultados da pesquisa diretamente para os nossos pacientes”, disse Fernando Soares.

Campanha no metrô e outras ações de impacto

No campo educacional, ao lado de iniciativas de longo prazo, como a transferência de conhecimento para professores da rede pública de ensino, o CEPID realizou também ações de impacto, como exposições sobre os diferentes tipos de câncer e as formas correspondentes de prevenção, levadas às estações do metrô de São Paulo, aos parques públicos e às escolas.

Informações sobre o HPV (Vírus do Papiloma Humano, que afeta a epiderme e as mucosas e pode ser um dos fatores do câncer de colo de útero), o câncer de mama e o câncer associado ao tabagismo foram alguns dos destaques da campanha, que também ensinou as mulheres a fazer o autoexame dos seios, para detectar eventuais anormalidades.

De acordo com Fernando Soares, as exposições tiveram repercussão mundial, sendo elogiadas até na Lancet Oncology, uma publicação de leitura obrigatória no campo da oncologia. “Promovemos ainda várias ações pontuais, como uma exposição para explicar ao público o conceito de herança genética baseado nos polimorfismos genéticos. Para tornar o tema acessível, utilizamos exemplos simples, como o fato de algumas pessoas sentirem mais o sabor amargo da feniltiocarbamina (PTC) do que outras. Para isso, coletávamos uma gota de sangue e avaliávamos o polimorfismo do gene TAS2R38. Os participantes receberam os resultados por e-mail”, acrescentou. Essa ação contou com a participação de alunos de pós-graduação, estimulando a difusão do conhecimento para a sociedade.

Em sintonia com as diretrizes do Programa CEPID, as ações de transferência de tecnologia e de educação se fundamentaram em realizações consistentes no âmbito da pesquisa básica. Houve um forte investimento na área de genômica, com a aquisição de sequenciadores de alto desempenho, plataformas de array CGH e um sistema de armazenamento e análise de dados. Tudo isso foi revertido em testes que passaram a ser oferecidos pela instituição em benefício dos pacientes.

Paralelamente, ocorreu um intenso treinamento de pesquisadores e técnicos, para o manuseio e a interpretação dos dados provenientes dessas análises. O processo ainda está em evolução, mas a expectativa é colher frutos na avaliação genética do paciente, na prospecção de tumores hereditários, no rastreamento de mutações e na identificação precisa dos fatores de risco associados.

Para saber mais: CEPID guarda o mais importante banco de tumores da América Latina e Drogas aumentam a precisão do tratamento.

(Foto: Juca Martins)