Drogas aumentam a precisão do tratamento
Pesquisas buscam conhecer em detalhes as especificidades de cada tipo de câncer com o objetivo de viabilizar um tratamento diferenciado e, portanto, mais eficaz

Por José Tadeu Arantes

O Centro Internacional de Pesquisa Ricardo Brentani, que teve origem no Centro Antonio Prudente para Pesquisa e Tratamento do Câncer – CEPID mantido pela FAPESP por um período de 11 anos –, busca avaliar os genes associados ao câncer, seus transcritos não traduzidos e as proteínas codificadas por esses genes que podem impactar no tratamento da doença.

“Existe toda uma geração de novas drogas – pequenas moléculas ou anticorpos – que atuam em alvos bastante específicos. Porém, para que essas drogas sejam eficazes, é preciso saber se o paciente tem a alteração específica que tais substâncias 'enxergam'. Então, montando painéis de genes por meio dos quais se consegue avaliar as alterações dos pacientes, é possível 'desenhar' tratamentos mais direcionados. Esse é um legado do CEPID no qual ainda estamos trabalhando”, informou Vilma Dias, diretora do Centro Ricardo Brentani.

Para Fernando Soares, diretor do Departamento de Anatomia Patológica do A.C. Camargo Cancer Center, há pouco mais de uma década, a grande meta era caracterizar geneticamente as principais neoplasias, os principais tipos de cânceres, diferenciando a célula cancerosa da célula normal. Tratava-se, por exemplo, de conhecer as diferenças entre o câncer de estômago e o estômago normal.

Essa etapa das pesquisas, segundo ele, foi cumprida e, hoje, busca-se conhecer as especificidades de cada câncer, com o objetivo de viabilizar um tratamento diferenciado e, portanto, mais eficaz. “Começamos observando um número limitado de genes. E evoluímos para a capacidade de sequenciar o genoma inteiro e buscar coisas que são até menos usuais para chegar a tratamentos mais específicos”, resumiu.

A decolagem do Centro, com a aquisição de uma avançada infraestrutura de pesquisa e um corpo de pesquisadores que hoje aglutina mais de 70 profissionais, se deu por meio da participação do A.C. Camargo no programa de sequenciamento do genoma da Xylella fastidiosa (1997-98), financiado pela FAPESP – uma corajosa decisão de seu então diretor, Ricardo Brentani, de engajar a pesquisa do hospital no sequenciamento de um patógeno de planta.

A instituição evoluiu ao longo do Projeto Genoma Humano do Câncer (2000), quando o A.C. Camargo forneceu todos os tumores utilizados pelos diferentes laboratórios envolvidos no estudo. E alcançou a maturidade com o CEPID.

Encerrada sua participação como CEPID, o complexo de pesquisa do A.C. Camargo Cancer Center encontra-se atualmente estruturado em dois núcleos: o Centro de Patologia Investigativa (CPI) e o Centro Internacional de Pesquisa Ricardo Brentani (Cipe).

Com foco na realização de exames anatomopatológicos para os pacientes do hospital, o CPI, que muito se beneficiou com a infraestrutura legada pelo CEPID e as contrapartidas do hospital, possui várias instalações e equipamentos destinados ao estudo da morfologia de tecidos e a diagnósticos.

O segundo núcleo, o Cipe, é aquele que, mais propriamente, dá seguimento às pesquisas realizadas pelo CEPID, com ênfase em biologia celular e molecular. O Centro dispõe de uma área de 4 mil metros quadrados, inteiramente remodelada e aparelhada, com capacidade para acolher 100 estudantes de pós-graduação. Entre as instalações e os equipamentos, destacam-se os novos sequenciadores de alto desempenho adquiridos com fundos do CEPID e do próprio A.C. Camargo, microscopia para análises funcionais e o biotério para testes em modelos animais, incluindo camundongos transgênicos, equipado com sistema multiespectral que permite aquisição e análise de imagem in vivo.

Além do legado palpável, materializado nessa infraestrutura, o CEPID deixou principalmente um legado impalpável, na forma de uma formidável massa de conhecimentos. “Estamos trabalhando pelo crescimento de nossa bioinformática para que seja possível analisar um número cada vez maior de dados”, comentou Vilma Martins. “Quanto mais a pesquisa avança, mais fatores são encontrados. O volume de informação é imenso e o grande desafio é conseguir trabalhar com ele.”

Para saber mais: CEPID guarda o mais importante banco de tumores da América Latina e Evolução do conceito de centro translacional.

(Foto: Juca Martins)