KyaTera, uma plataforma de testes ópticos
Rede de fibra óptica implantada pela equipe do CePOF de Campinas possibilita o teste de novas tecnologias também pelos parceiros industriais e acadêmicos do Centro

Por Claudia Izique

O Centro de Pesquisa em Óptica e Fotônica (CePOF), instalado em Campinas, foi constituído em 2000, no primeiro edital do Programa Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPID) da FAPESP. Nos primeiros anos, o CePOF teve duas sedes: uma no campus de São Carlos da Universidade de São Paulo (USP), especializada em física atômica molecular, e outra na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Em 2005, CePOF foi dividido em dois centros com administração e gestão autônomas, e o CePOF Campinas reorganizou seu portfólio de pesquisa implementando os programas Comunicação Óptica e Fotônica Exploratória, com forte atuação na área de Biofotônica. 

O principal legado dessa primeira fase do CePOF Campinas, na avaliação de Hugo Fragnito, coordenador do Centro, foi a implantação da Rede KyaTera – uma plataforma de fibra óptica que interliga laboratórios de comunicação óptica de todo o Estado de São Paulo, instalados na capital (USP e Universidade Presbiteriana Mackenzie), em Campinas (Unicamp, Pontifícia Universidade Católica de Campinas e CPqD), em São Carlos (USP), entre outros locais; com enlaces para as redes acadêmicas Academic Network at São Paulo (ANSP), Rede Nacional de Pesquisa (RNP), Rede Ipê e Rede GIGA; e conexão com a Global Lambda Integrated Facility (GLIF).

“Implantada em 2005, a KyaTera transformou-se num gigantesco laboratório virtual para testes de novas tecnologias e novas ideias, com usuários em todas as partes do mundo”, afirma Fragnito. Com informações trafegando a 320 gigabytes por segundo (Gb/S) – ante 10 Gb/s da rede convencional – a Rede KyaTera permitiu superar um dos principais obstáculos para o desenvolvimento da pesquisa em comunicação óptica: “Tínhamos acesso à rede de fibra estatal, mas muita dificuldade para testar novas ideias”, lembra Fragnito.

A ideia de construção da KyaTera, proposta pelo CePOF Campinas, foi encampada pela FAPESP, que incorporou o projeto da rede óptica ao Programa Tecnologia da Informação no Desenvolvimento da Internet Avançada (Tidia).

Tecnologia compartilhada

A Rede KyaTera possibilita que todas as instrumentações e todos os laboratórios do CePOF Campinas sejam utilizados como WebLab, acessível remotamente por pesquisadores e alunos de outras partes do mundo, de acordo com Fragnito.

Permite também a realização de testes de novas tecnologias, como para a transmissão de sinais de rádio por fibras ópticas (RoF, do inglês Radio over Fiber), desenvolvida por um grupo de professores e alunos e que deu origem à empresa R4F, constituída em 2008.

A tecnologia estende o alcance das informações que trafegam por fibra óptica por meio de um sistema rádio elétrico que passa a funcionar com uma espécie de “último quilômetro” até a entrega do serviço de telecomunicação ao consumidor final. “O RoF eliminará, por exemplo, a presença das Estações Rádio-Base, que fazem a conexão entre os telefones celulares e as operadoras de telecomunicações e são instaladas no alto de prédios em locais como a avenida Paulista, na capital”, exemplifica Osmar Branquinho, sócio da R4F.

A empresa já realizou os primeiros testes de conexão com a Vivo, utilizando componentes importados. Agora, com o apoio da FAPESP, está desenvolvendo e customizando equipamentos nacionais no âmbito do Programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (PIPE). “O dispositivo estará pronto em 2014”, adianta Branquinho.
 
A KyaTera atrai ainda um grande número de parceiros industriais, como Motorola, CPqD, Telemar (atualmente Oi), Sumitomo, National Instruments, Natura, entre outros. Alguns são também co-patrocinadores, como OFS, Corning e Metro Cable, que doaram cabos e equipamentos para a construção da rede, ou Padtec e Datacom Telemática, que forneceram equipamentos a preço de custo.

Telefonica e a CPFL também contribuíram para a implantação da rede, autorizando o uso de fibras apagadas e postes. Já a Foundry, a Cisco, a Terremark, entre outras, contribuíram diretamente para o financiamento da rede. A participação da Telefonica foi decisiva ainda para interligar as instituições de pesquisa do Estado de São Paulo: quase cinco mil quilômetros de fibra foram cedidos para a KyaTera.

A Padtec investiu 760 mil dólares para testar sistemas de fibras de longa distância, desenvolvidos em ambiente de laboratório, numa rede real, a plataforma KyaTera. Também estão em curso projetos colaborativos com a Orbisat-Embraer para a miniaturização de filtros de microondas e de antenas, baseados em ressonadores dielétricos. Em parceria com o Instituto Eldorado, os pesquisadores investigam a tecnologia do sistema RFID (identificação por radiofrequência), utilizado, por exemplo, em pedágios de estradas e shoppings centers.
  
A interface do CePOF Campinas com a indústria é feita por intermédio de um setor de Inovação e Transferência de Tecnologia bastante ativo, com o apoio da Inova, Agência de Inovação da Unicamp, que promove a incubação de pequenos negócios, oferece suporte para o depósito de patentes e faz interface com indústrias. Graças a essa colaboração, cerca de 30 patentes já foram depositadas por pesquisadores do CePOF, sendo duas de origem europeia.
 
As atividades de pesquisa do CePOF permitiram ainda a criação de várias startups, como a Laser Tools, a Fiber Work e a BR Labs. A BR Labs, por exemplo, oferece soluções e produtos em tecnologia de lasers, com aplicação em pesquisa e no mercado de segurança. A empresa está instalada na Companhia de Desenvolvimento do Polo de Alta Tecnologia Campinas (Ciatec) desde janeiro de 2009 e, em 2012, concluiu um projeto de desenvolvimento de lasers de estado sólido compacto,  financiado pelo PIPE.

“Como resultado, cinco lasers de safira dopada com titânio (Ti:Safira) foram despachados para universidades brasileiras”, conta Fragnito. “A BR Labs também está conduzindo dois projetos para desenvolver radiação terahertz e sistemas de imagem e de espectroscopia, em projetos financiados pela Financiadora de Estudos e Projeto (Finep) e pela FAPESP, por meio do programa PIPE-Fase II”.

Para saber mais sobre o CePOF de Campinas leia também: Comunicação para o futuroA versatilidade da luz e Conhecimento para a sociedade.

(Foto: Juca Martins)