Sono e sexualidade
Estudos com modelos animais conduzidos por pesquisadores do CEPID apontam para correlação entre a privação de sono e a liberação de hormônios ovarianos

Por José Tadeu Arantes

Monica Levy Andersen, pesquisadora do Instituto do Sono – um dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPIDs) mantidos pela FAPESP entre 2000 e 2013 – investigou a influência do sono no comportamento sexual utilizando modelos animais. “Descobrimos que a privação de sono induzia nas ratas modificações hormonais, conforme a fase estral em que eram submetidas a essa condição, indicando uma correlação entre o sono e a liberação dos hormônios ovarianos.”

Assim, ratas em fase posterior ao cio, quando a fêmea rechaça qualquer aproximação do macho, submetidas a um protocolo de privação de sono paradoxal (PSP) por 96 horas, tiveram o ciclo estral interrompido, permanecendo em anestro (em inatividade sexual) por 10 dias (Antunes et al, 2006). Essas fêmeas também apresentaram um aumento significativo de corticosterona e redução de estradiol em relação às ratas-controle na mesma fase do ciclo estral, além de alterações no padrão de sono (Andersen et al, 2008), relatou a pesquisadora.

O grupo também estudou o comportamento sexual de ratas submetidas à privação de sono em fases específicas do ciclo estral e demonstrou que, durante a fase do proestro (período que antecede a fase reprodutiva ou estro) houve um aumento na proceptividade (manifestação explícita do desejo sexual) e na receptividade (aceitação da cobertura pelo macho). Contudo, quando a privação de sono foi realizada durante as fases de estro e diestro, observou-se um aumento dos comportamentos de rejeição ao macho (Andersen, Alvarenga et al, 2009).

O insônia no período pós-menopausa também foi objeto de investigação. Um dos medicamentos alternativos com eficácia comprovada pelos pesquisadoras foi a isoflavona, fitoterápico utilizado para a mitigação dos sintomas da menopausa. “Observamos que a isoflavona diminuiu a frequência e a intensidade de sintomas vasomotores e de insônia quando comparada ao placebo, em um estudo prospectivo controlado, duplo-cego e randomizado (Hachul et al 2011)”, disse Helena Hachul, responsável pelo Ambulatório de Distúrbios do Sono no Climatério na Universidade Fderal de São Paulo (Unifesp).

Esses achados iniciais foram posteriormente complementados com um estudo prospectivo controlado e randomizado (Souza et al. 2012), em que mulheres na pós-menopausa e com insônia foram distribuídas em três conjuntos: grupo-controle, grupo que recebeu exercícios de alongamento e grupo que recebeu massagem terapêutica. “Os resultados mostraram que o melhor tratamento foi a massagem”, prosseguiu a pesquisadora.

Em outro estudo, investigou-se o efeito terapêutico da prática de ioga em mulheres com insônia na pós-menopausa (Afonso et al, 2012). Como no caso anterior, as mulheres foram distribuídas em três grupos – controle, alongamento e ioga – e os mesmos parâmetros foram observados, pendendo os resultados a favor da prática de ioga, concluiu Helena Hachul. O uso da acupuntura e de técnicas de meditação também foi estudado, com resultados positivos para o tratamento da insônia em ambos os casos (Garcia et al 2013, no prelo).

Riscos no trabalho

As pesquisas do Instituto do Sono também contribuíram para alertar para os riscos que os distúrbios de sono podem trazer para a situação de trabalho. Um dos estudos, realizado por Marco Túlio de Mello, professor associado do Departamento de Psicobiologia da Unifesp e pesquisador do Instituto do Sono, e por Sergio Tufik, coordenador do Instituto, investigou 400 motoristas de uma grande empresa de ônibus. 

Os resultados revelaram que, após um período de sono, 48% deles, quase a metade do total, continuavam cansados e com déficits de atenção na hora em que deveriam dirigir novamente.

O prosseguimento das pesquisas possibilitou que o CEPID recomendasse modificações nas escalas de trabalho das empresas, que reduziram drasticamente o número de acidentes, e viesse a ter uma participação decisiva na elaboração da nova legislação de trânsito [leia mais em Uma pesquisa que mudou a legislação].

Para saber mais: Instituto do Sono é referência internacional em pesquisa e Oscilações hormonais.
 
(Foto: SXC.hu)