Oscilações hormonais
Resultado de pesquisa mostra que mulheres com ciclo menstrual irregular apresentavam duas vezes mais chance de ter queixas sobre dificuldade para dormir

Por José Tadeu Arantes

As queixas em relação ao sono são mais frequentes em mulheres do que em homens. Isso poderia ser atribuído às grandes oscilações hormonais que ocorrem durante o ciclo menstrual, bem como a sintomas como a tensão pré-menstrual e as cólicas menstruais.

Parece haver uma relação bidirecional entre o ciclo menstrual e o sono. Um estudo liderado por Helena Hachul, responsável pelo Ambulatório de Distúrbios do Sono no Climatério na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), publicado na revista Climateric (Hachul et al 2011), mostrou que mulheres com ciclo menstrual irregular apresentavam duas vezes mais chance de ter queixas de dificuldade para dormir. Por outro lado, problemas de sono ou a privação de sono podem acarretar alterações no ciclo menstrual, como foi verificado em outra pesquisa.

Na menopausa, seria de se esperar que os distúrbios diminuíssem. Mas, ao contrário, a situação piora, com maior incidência de insônia, ronco, apneia e pernas inquietas. “A insônia afeta cerca de 60% das mulheres na pós-menopausa (Hachul et al 2005)”, revelou Hachul.

Os motivos são vários, desde as ondas de calor, que podem levar a mulher a despertar, às alterações de humor, associadas às mudanças que muitas vezes caracterizam essa etapa da vida: aposentadoria, casamento dos filhos (gerando a chamada síndrome do ninho vazio), frustração diante das expectativas não realizadas.

Tudo isso ocorre em um quadro de grande transformação hormonal. “Além de perder estrogênio, a mulher perde também progesterona, considerada um estimulante respiratório. Sua ausência aumenta a incidência de apneia, ocasionando um sono fragmentado, e excessiva sonolência diurna, cansaço e perda de memória. Corrobora esse efeito hormonal a mudança de distribuição da gordura corpórea, que, após a menopausa, passa a se concentrar mais na parte central do corpo”, informou a pesquisadora.

O Instituto do Sono – que, entre 2000 e 2013 foi um dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão mantidos pela FAPESP – conta hoje com um ambulatório específico de distúrbios de sono no climatério, visando atender essa população específica de mulheres na pós-menopausa. Paralelamente à parte assistencial, realiza pesquisas sobre as prevalências dos distúrbios e sua relação com a questão hormonal e avalia as possibilidades de tratamento tradicional e/ou com medicina alternativa ou complementar.

“Em 2006, observamos que 50% das mulheres com queixa de insônia apresentavam na realidade distúrbio respiratório de sono (Hachul et al 2006). A terapia hormonal convencional diminuiu o número de despertares durante o sono, tanto em mulheres com uso de estrogênio isoladamente quanto em mulheres com uso de estrogênio associado a progesterona (Hachul et al 2008). Mas, com as publicações de pesquisas mostrando efeitos deletérios da terapia hormonal, o seu emprego ficou mais restrito. A terapia hormonal deve ser individualizada, pesando-se prós e contras, benefícios e riscos”, ponderou Hachul.

Psoríase e insuficiência renal crônica

A privação de sono pode provocar ou, pelo menos, agravar a psoríase, conforme foi demonstrado por pesquisa de Camila Hirotsu, do Departamento de Psicobiologia da Unifesp. Caracterizada por lesões inflamatórias e descamativas, a psoríase é uma das principais doenças crônicas da pele, afetando cerca de 10% da população. Suas causas compreendem múltiplos fatores, desde a predisposição genética até alterações imunológicas, desencadeadas pelo estresse.

“A partir do conhecimento de que a falta de sono pode predispor ao estresse ou ser um sintoma dele, foi organizado um estudo para investigar, pela primeira vez, se a privação de sono seria capaz de agravar o desenvolvimento da psoríase em modelo animal”, afirmou Hirotsu.

Camundongos foram distribuídos em três grupos: o primeiro não teve seu sono perturbado; o segundo foi privado de sono REM (da sigla em inglês “rapid eyes movements”, fase menos profunda do sono, na qual ocorrem os sonhos mais vívidos) por 48 horas após a indução da psoríase, e o terceiro foi privado de sono REM 48 horas antes da indução da psoríase, tendo depois a oportunidade de compensar sua falta de sono com um rebote de sono de 48 horas. Animais-controle sem a indução da doença também foram incluídos no estudo.

“Os resultados mostraram que a privação de sono foi capaz de potencializar o desenvolvimento da psoríase, exacerbando a atividade das enzimas calicreína-5 e calicreína-7 na pele dos camundongos com psoríase privados de sono. Concomitantemente, observou-se um aumento do estresse, evidenciado pelo aumento do hormônio corticosterona nesses animais”, relatou a pesquisadora.

Observou-se ainda que a privação de sono afetou o sistema imunológico de maneira mais acentuada nos animais com psoríase, levando ao aumento das citocinas pró-inflamatórias IL-1β, IL-6 e IL-12, e redução da citocina anti-inflamatória IL-10. No entanto, após o rebote de sono, todas essas alterações foram atenuadas.

“Análises estatísticas revelaram que as citocinas IL-2 e IL-12 foram consideradas fatores de risco para o aumento tanto de corticosterona circulante como de calicreínas na pele, indicando que a falta de sono pode agravar a psoríase pela combinação de fatores imunológicos e de estresse”, continuou.

Mesmo com todo o cuidado de não extrapolar indevidamente resultados obtidos com modelos animais para seres humanos, é possível inferir que um regime saudável de sono pode contribuir para evitar o avanço e a piora da psoríase. “Além disso, foi possível sugerir possíveis alvos para o tratamento da doença com anti-interleucinas (ILs)”, concluiu Hirotsu.

Insuficiência renal crônica

Outra condição pesquisada pelo Instituto do Sono foi a insuficiência renal crônica (IRC), doença caracterizada pela perda irreversível dos rins, levando o paciente a depender unicamente de aparelhos de diálise ou do transplante renal, com a possibilidade de complicações cardiovasculares, às vezes fatais. A progressão da IRC é acompanhada por situações estressoras intimamente associadas a alterações na quantidade e qualidade do sono. O estudo teve por objetivo investigar pioneiramente se a restrição de sono seria capaz de acelerar a progressão da IRC em modelos animais.

Para isso, foram utilizados ratos machos adultos distribuídos em quatro grupos: controle não-restrito de sono, controle restrito de sono, IRC não-restrito de sono e IRC restrito de sono. A IRC foi induzida nos animais por método cirúrgico (nefrectomia) e a restrição de sono foi feita pela privação de sono REM por 20 horas/dia durante 10 dias.

“Os resultados mostram que a restrição de sono de fato agravou a IRC, reduzindo o clearance de creatinina (volume de plasma sanguíneo depurado de creatinina por unidade de tempo, o que possibilita estimar a taxa de filtração dos rins) e aumentando os marcadores de perda da função renal, como ureia, creatinina e proteinúria”, afirmou a orientadora do estudo, Monica Levy Andersen, pesquisadora do Instituto do Sono.

“Essa piora foi acompanhada em parte pelo aumento do hormônio aldosterona, resultante da ativação do sistema renina-angiotensina. Ressalte-se que animais-controle sem a doença, mas que foram restritos de sono, também apresentaram piora da função renal, com redução do clearance de creatinina”, disse Andersen.

Além disso, a restrição de sono aumentou a pressão arterial sistólica e a frequência cardíaca dos animais IRC, em associação a uma redução na expressão gênica cardíaca da eNOS (óxido nítrico sintase endotelial, enzima produtora de óxido nítrico, molécula vasodilatadora) e também da ECA2 (enzima conversora de angiotensina 2 e produtora da angiotensina 1-7, peptídeo importante no balanço do estresse oxidativo).

“O sistema imunológico e de estresse também foram afetados pela restrição de sono, por meio do aumento nos níveis da citocina pró-inflamatória TNFα e dos hormônios ACTH e corticosterona nos animais com insuficiência renal crônica. Observou-se ainda que a restrição de sono foi capaz de aumentar a mortalidade dos animais com IRC, como resultado de todas as alterações encontradas”, acrescentou a pesquisadora.

Para saber mais: Instituto do Sono é referência internacional em pesquisa e Sono e sexualidade.

(Imagem: Instituto do Sono)