Uma pesquisa que mudou a legislação
Marco Túlio de Mello, pesquisador do CEPID e professor do Departamento de Psicobiologia da Unifesp, conta como os estudos do Centro ajudaram a reduzir acidentes nas estradas

Depoimento de Marco Túlio de Mello a José Tadeu Arantes

“No início da década de 1990, fomos procurados por uma empresa de ônibus para que estudássemos o estado de atenção de seus motoristas enquanto dirigiam. Assim, a partir de 1993, o doutor Sérgio Tufik e eu começamos a monitorar os motoristas e também trabalhadores por turno, aqueles que a cada dia trabalham em um horário ou sempre trabalham à noite.

Nosso primeiro estudo, publicado em 2000, mostrou que 16% dos 400 motoristas entrevistados relatavam que dormiam enquanto estavam dirigindo – em uma média de oito cochilos por viagem. Isto, por si só, já seria gravíssimo.

Mas havia um outro item no questionário no qual perguntávamos 'Você tem algum colega que dorme enquanto dirige?' Neste caso, as respostas afirmativas subiam para perto de 53%!

O resultado nos assustou bastante. Trouxemos esses motoristas ao laboratório para uma nova pesquisa. Cada motorista devia dormir logo depois de chegar de seu turno de trabalho. Se havia viajado de dia, dormia de noite. Se havia viajado de noite, dormia de dia. E, depois que acordava, nós realizávamos a avaliação de sua condição de vigília – isto é, de quanto ele estava resistente para se manter acordado.

Verificamos que o número exato não era nem 16% nem 53%, mas 48%. Isto é, 48% dos motoristas, quase a metade do total, estavam cansados na hora em que deveriam dirigir novamente!

Percebemos que esse problema se devia à escala de trabalho dos motoristas e à presença de distúrbios de sono. Poucas pessoas entendem os aspectos biológicos relacionados com a escala de trabalho e, por isso, ao escalar os outros para trabalhar, levam em conta apenas os aspectos quantitativos, ou seja, o número de pessoas trabalhando, sem considerar as condições operacionais de cada trabalhador.

Está muito difundida a ideia de que todos nós temos que dormir oito horas por dia. Isso é falso. O que sabemos é que a média da população atual dorme de seis horas e quarenta minutos a sete horas. E que essa média está diminuindo com o tempo. Ou seja, nossa sociedade vem dormindo cada vez menos – o que não é bom para a saúde!

Outro dado é que existem pessoas que são curto-dormidoras, isto é, que dormem menos de seis horas ou seis horas e meia, e ficam muito bem; e existem pessoas que são longo-dormidoras, e precisam dormir mais de nove horas e meia por dia.

Associado a isso, temos o cronotipo de cada um. Há os matutinos, que gostam de dormir cedo e acordar cedo; os vespertinos, que gostam de dormir tarde e acordar tarde; e os indiferentes, que somam cerca de 70% da população.

Depois de avaliar quase 10 mil pessoas, verificamos que os extremos, isto é, tanto os matutinos quanto os vespertinos, não se adaptam ao trabalho por turno: são os primeiros que desistem do emprego, pois sofrem muito com essa condição. Contratar essas pessoas para um trabalho por turno, além do risco maior de acidentes, traz um grande prejuízo para as empresas, porque os trabalhadores tendem a abandonar o emprego depois de um ano, ou dois anos, no máximo.

A partir daí, prestamos serviços para várias empresas – entre as quais uma que chamou muito nossa atenção por operar em nove estados brasileiros. Em sua pior rota, havia uma média de 3,6 óbitos para cada 100 mil quilômetros rodados! Só por reorganizarmos a escala de trabalho, verificando se os trabalhadores tinham ou não distúrbios de sono e melhorando suas condições, a média baixou para 0,6. Isso representou, no mínimo, 32 mortes a menos por ano, apenas nessa rota da empresa. Uma mudança como esta é algo que não tem dinheiro que pague.

Todos esses dados, que o CEPID nos ajudou a coletar, bem como os investimentos, que o CEPID nos permitiu fazer, ajudaram muito a mudar o comportamento da sociedade. Ajudaram tanto que, hoje, eu sou integrante da Câmara Temática de Saúde e Meio Ambiente do Conselho Nacional de Trânsito (Contran), e, há cerca de três anos, nós mudamos a legislação, introduzindo a avaliação dos distúrbios de sono entre os critérios para obtenção da Carteira Nacional de Habilitação de tipos C, D e E – aquela que, antes, era classificada, genericamente, como destinada a “motoristas profissionais”.

O CEPID nos propiciou mudar a sociedade, diminuindo o número de acidentes, mostrando para as pessoas que essa mudança é fácil de fazer, e colocando os conhecimentos à disposição da sociedade, principalmente dentro das empresas. Muitas vidas estão sendo poupadas nas estradas e nas indústrias.

Passamos a trabalhar também com maquinistas de trem e pilotos de avião. Em relação aos pilotos de avião, um outro estudo monitorou 15 mil horas de voo de uma determinada companhia do Brasil e fez um levantamento dos erros cometidos e registrados nas caixas-pretas dos aviões. Os erros são classificados em uma escala de 1 a 5. Só consideramos os erros superiores da 3, isto é, os erros graves. Constatamos que, no período da madrugada, esses erros aumentam em 46%! Só não resultam em um número muito maior de acidentes graves porque existe o piloto automático.

Outra pesquisa, na qual o CEPID nos ajudou muito, relaciona-se com a forma de alimentação do trabalhadores noturnos ou por turno. Verificamos que, em um total de quase oito mil pessoas avaliadas, o trabalhador noturno ou por turno ganha, logo no primeiro ano de trabalho, de cinco a seis quilos de peso a mais. E continua engordando, no período seguinte, de 0,8 a 1,2 quilo por ano.

Isso significa que, quando se trabalha à noite ou por turno, a pessoa fica mais exposta à alimentação: come mais por estar mais tempo acordada, e come comidas mais calóricas, porque à noite sua temperatura corporal cai.

Outro ponto importante que conseguimos demonstrar foi que esses trabalhadores, privados ou restritos de sono, perdiam massa magra e, assim, substituíam musculatura por gordura. A recomendação saudável é exatamente o oposto disso: fazer as três refeições no período do dia, na claridade, e, à noite, ingerir apenas alimentos muito leves, além da praticar exercícios físicos.

Por termos feito todo esse trabalho, fomos chamados ao Congresso Nacional para opinar sobre a nova legislação do trânsito. E essa legislação nova, que limita o tempo para dirigir a 11 ou 12 horas, e estabelece, no mínimo, 11 horas de descanso entre um período de trabalho e outro, é muito boa.

Fizemos um estudo-piloto, em que os motoristas desceram de São Paulo a Porto Alegre como faziam antes e voltaram de acordo com as normas da nova legislação. Todos os seus parâmetros melhoraram, quando aplicada a nova legislação. Os conhecimentos que o CEPID nos trouxe nos ajudaram a dar subsídios ao Congresso Nacional para a definição da nova legislação.”

(Foto: Juca Martins)