Tecnologia para o mercado
O Centro de Terapia Celular busca parceiros para transferir a tecnologia de produção de fatores recombinantes desenvolvida pelos pesquisadores do CEPID

Por Claudia Izique

O círculo virtuoso de pesquisa e inovação promovido pelos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPIDs), apoiados pela FAPESP, passa necessariamente pela oportunidade de oferecer novas tecnologias para o setor produtivo. No caso do Centro de Terapia Celular (CTC), essa missão inclui a transferência de conhecimento também para o setor público. “Tal objetivo envolve mudança de cultura e do foco da pesquisa”, afirma Dimas Covas, pesquisador do CTC e diretor-presidente da Fundação Hemocentro de Ribeirão Preto.

O CTC é “forte”, ele diz, na produção de proteínas recombinantes para uso em terapias gênicas e, no momento, busca parceiros para transferir a tecnologia de dois fatores de coagulação desenvolvidos em parceria com o Instituto Butantan e com o Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT).

“Já concluímos o desenvolvimento de bancada do Fator 8, um produto de quarta-geração, produzido com célula humana, no estado da arte, e utilizado no tratamento de Hemofilia A. Estamos em fase de escalonamento e prestes a iniciar a fase de pesquisa clínica. As pesquisas com o Fator 9 (utilizado no tratamento de Hemofilia B) estão adiantadas. A  tecnologia está dominada”, conta Covas. Nessa empreitada, além de recursos da FAPESP, o CTC teve o apoio da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep).

Produzidos com células humanas, o que elimina o risco de sensibilização ou contaminação, os fatores recombinantes desenvolvidos pelo CTC não têm concorrentes no mercado nacional ou internacional. “Quem compra e distribui proteínas recombinantes é o Ministério da Saúde. No caso do Fator 8, estamos falando de um mercado nacional de US$ 500 milhões e de um mercado internacional dominado por duas ou três companhias, o que nos coloca numa posição muito boa”, afirma Covas. Os fatores 8 e 9 já têm patente depositada.

Constituído como CEPID em 2000, no primeiro edital do Programa da FAPESP, o CTC é credenciado, desde 2008, como Centro de Tecnologia Celular para a produção de células-tronco humanas pluripontentes (embrionárias), hematopoiéticas e mesenquimais, em condições de Boas Práticas de Manipulação.

“Fornecemos células para os hospitais Albert Einstein, em São Paulo, e Amaral Carvalho, em Jaú, e estamos em fase de certificação pela Associação Americana de Bancos de Sangue [AABB, da sigla em inglês]”, informa Covas.

Em matéria de qualidade, o CTC já é referência nacional. De acordo com Covas, “a nossa tecnologia de controle de qualidade, já certificada pela AABB, está sendo repassada a outros hemocentros com os quais temos contrato de treinamento”.

A experiência desdobrou-se em dois mestrados profissionais, um de hemoterapia e outro de biotecnologia. O primeiro, financiado pelo Ministério da Saúde, tem 20 alunos de todo o Brasil. O de biotecnologia, ainda sem instituição financiadora, tem quatro. “A Coordenadoria de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e a FAPESP não mantêm programas de bolsas de mestrado profissional”, ele explica. “Esse é um problema que teremos de resolver.”

Biomagnetismo contra a talassemia

Algumas tecnologias não têm escala para serem transferidas a empresas, mas promovem ganhos significativos no tratamento de doentes. Um exemplo vem do Departamento de Física da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo de Ribeirão Preto (FFCLRP/USP): um instrumento que mede a concentração de ferro no fígado e que foi tema das teses de doutorado e de pós-doutorado do físico Antonio Adilton Oliveira Carneiro, bolsista da FAPESP nas duas ocasiões. “Era preciso levar a inovação para a clínica”, ele lembra. 

Em 2009, a inovação materializou-se em uma área cedida pelo CTC: o equipamento passou a ser utilizado no tratamento de 53 pacientes portadores de talassemia, doença que se manifesta na forma de anemia crônica e que exige constantes transfusões de sangue. Parte do ferro, transfundido para o paciente junto com a hemoglobina, é depositada no coração e no fígado e é tóxica. “Existem terapias com agentes quelantes que ajudam a excretar o ferro pela urina, mas com ação tóxica para os rins”, explica Oswaldo Baffa Filho, professor de Física Médica da FFCLRP/USP.

A nova tecnologia permite avaliar a quantidade de ferro depositada no fígado e ajuda a sinalizar o momento certo para o uso do quelante. Acoplado a uma cama pneumática controlada por computador, o equipamento mede a quantidade de ferro no fígado utilizando técnica de interação com campo magnético.

“Até agora, as alternativas para a avaliação da quantidade de ferro no organismo eram a biópsia de fígado ou a análise da ferritina em soro, cujos resultados são imprecisos. O uso da nova tecnologia melhora a qualidade de vida do paciente e pode prolongar sua vida”, afirma Baffa. A inovação está sendo testada no tratamento de outras hemocromatoses, como a anemia falciforme, que atinge uma fração da população negra no país.

Para saber mais sobre o CTC leia também Pesquisa aplicada em células-tronco e O círculo virtuoso da Ciência.

(Foto: CTC)